domingo, 31 de outubro de 2010

Lula: "Serra sai menor desta eleição"

SÃO BERNARDO DO CAMPO. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse hoje em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, após votar, esperar que Dilma Rousseff faça mais pelo Brasil do que ele fez e afirmou que o tucano José Serra, seu adversário, sairá menor do que quando entrou na eleição.
- Serra sai menor desta eleição. Ele fez uma campanha agressiva contra a Dilma. Ela foi vitima do preconceito contra a mulher - disse Lula, que condenou, ainda, a politização da religião nesta eleição. E criticou o uso das palavras do Papa sobre o aborto.
- A única novidade seria o Papa dizer que prega o aborto. O que houve foi o uso político das declarações do Papa - disse Lula, após votar hoje por volta das 10h na Escola Estadual João Firmino, no bairro Assunção, em São Bernardo do Campo, ao lado da mulher dona Marisa Letícia.
- O que aconteceu nesta eleição foi grave: a disseminação do ódio - disse Lula.
Ele desconversou quando os jornalistas lhe perguntaram se ele voltaria em 2014, dizendo que "nem sei se vou estar vivo até lá".
- Agora só penso em descansar - disse Lula.
Para Lula, na democracia o importante é que se tem data para entrar e data para sair, dizendo estar numa situação "confortável" para deixar o poder, se referindo aos altos índices de aprovação de seu governo.
Sobre eventual governo de Dilma Rousseff, Lula disse que não vê possibilidade nenhuma de participar do governo.
- Não existe nenhuma possibilidade de um ex-presidente participar de um governo, mas vou continuar conversando com Dilma. Ela é minha companheira.
Lula defendeu ainda o palhaço Tiririca, eleito com mais de 1,3 mihão de votos e também os políticos ficha suja, barrados pelo STF.
- O que estão fazendo com o Tiririca é uma cretenice. Ele foi eleito com 1,5 milhão de votos. Quem deveria fazer o teste (de que se sabe ler e escrever) é quem pediu o teste - disse Lula.
Ele defendeu ainda os candidatos barrados pela Lei do Ficha Limpa que participaram da eleição e agora não sabem se podem tomar posse.
- Então a Justiça não deveria deixar que eles participassem da eleição - disse Lula.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Cratera da Lua seria um oásis, com mais água que o Deserto do Saara

Publicada em 22/10/2010 às 11h12m
O Globo



RIO - A Lua guarda tesouros que até recentemente os cientistas ignoravam. Quando, em outubro do ano passado, a Nasa, a agência espacial americana, arremessou contra a cratera Cabeus um pedaço de foguete e o satélite Lcross, parte do Lunar Reconnaissance Orbiter, eles esperavam detectar na nuvem de poeira levantada apenas alguns traços de água. O que encontraram, no entanto, vai muito além disso: prata e outros minerais que podem se mostrar fundamentais para a manutenção de uma eventual estação lunar, além de uma espécie de oásis com mais água que o Deserto do Saara. As conclusões foram publicadas em uma série de artigos na revista "Science" desta semana.

- É um recurso valioso e confirma que algumas partes da Lua têm mais água que a Terra - disse Anthony Colaprete, principal investigador do Satélite de Sensoriamento e Observação de Crateras Lunares (Lcross, na sigla em inglês), da Nasa.
Haveria 4 bilhões de litros de água

As areias do Saara têm de 2% a 5% de água. Na Lua, a quantidade do líquido cristalizado na cratera, que fica em uma escuridão permanente, chega a 8,5% da mistura e é bem mais fácil de ser extraída do que a do deserto. Os cientistas estimam que a Cabeus guarde algo em torno de 4 bilhões de litros de água. Purificada, ela poderia ser usada pelos astronautas para beber ou até mesmo transformada em hidrogênio e oxigênio, essenciais para o combustível de naves espaciais.

- É um número alto, bem maior do que estávamos antecipando - afirmou Colaprete. - A cratera é um oásis no deserto lunar. Os recursos estão lá e potencialmente podem ser usados em missões futuras - acrescentou.

A colisão do pedaço de foguete e do Lcross com a Lua foi transmitida pela internet e causou frustração na época, já que o impacto não gerou explosões, fogo ou fumaça. Mas, ao analisar os resíduos do choque, os cientistas encontraram muito mais do que estavam procurando. Em novembro do ano passado, uma equipe anunciou que o impacto tinha levantado ao menos 100 litros de água, confirmando a suspeita de que havia água nas crateras da Lua. Com os novos dados, as estimativas subiram para 152 litros. Ao calcular a quantidade de resíduos soltos pelo choque, foi possível estimar a quantidade do líquido dentro da cratera pela primeira vez.

Também causou surpresa aos pesquisadores os outros elementos e moléculas detectados pelo Lcross próximo ao pólo sul da Lua. As substâncias foram encontradas num dos lugares mais frios do Sistema Solar, com temperatura de 187 graus Celsius negativos no lugar mais profundo da Cabeus, marcada por uma história de impactos e acúmulos de detritos por mais de 2 bilhões de anos.

- É como se ela fosse um reservatório do nosso clima cósmico - explicou Peter H. Schultz, professor de Ciências Geológicas da Brown University. - Este lugar parece uma arca do tesouro dos elementos, de compostos que foram liberados por toda a Lua e que foram reunidos neste balde nas sombras permanentes.

Além da prata, os cientistas detectaram a presença de cálcio, magnésio e mercúrio na Lua. Diante desta variedade de minerais, eles agora podem examinar sua abundância relativa e especular que tipos de objetos atingiram o satélite ao longo de sua história. Parte do material parece com o que é encontrado em cometas, enquanto outra pode ter sido produzida por reações químicas, o que indicaria que a Lua tem um ambiente dinâmico.

Segundo a Nasa, ao entenderem os processos e ambientes que determinariam onde a água pode ser encontrada na Lua, como ela chegou lá e o ciclo do líquido no satélite, planejadores de futuras missões poderão escolher melhor os locais de pouso.

- Creio que os pólos (da Lua) acabam de abrir muitas novas questões para nós - disse Schultz. - Acho que é nosso destino voltar lá, e não apenas em termos comerciais - concluiu.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Alguém me Disse - Dacio Malta



Posts com a tag ‘UDN’

Três histórias de Vitorino

6 de agosto de 2009

Nos primeiros três minutos de seu discurso no Senado, José Sarney agradeceu a colaboração de Heráclito Fortes em sua gestão, elogiou o “governo excepcional” de Lula, e disse que “houve um tempo nesse Senado, em que minha vida era ameaçada todo dia pelo senador Vitorino Freire, que foi um grande inimigo que tive - e político”.
Nos anos 70, o jornalista Sebastião Nery editou três livros com histórias do ‘Folclore Político’ do país. São deles as três histórias que se seguem e que falam de Vitorino, liderança do antigo PSD.
1. Vitorino estava em casa com gripe e muita febre. Recebeu telegrama do Senado (então no Monroe, ali na Cinelândia) para ir urgente a uma reunião da Comissão de Finanças, que dependia de sua presença. Lá fora, chovia pra valer.
Agasalhou-se, pôs sueterm cachecol, capa, chapéu e saiu para pegar um táxi. Não vinha táxi. Entrou numa farmácia para tomar injeção. Quanto tirou a capa e o paletó, apareceu o revólver. Ia passando uma radio-patrulha, viu, parou, chamou-o:
- O senhor é policial?
- Não.
- É tesoureiro?
- Não.
- É caixa?
- Não.
- Tem porte de arma?
- Também não.
- Então o senhor vai ter que ir até o comando da polícia.
Vitorino entrou na RP e eles tocaram para a cidade. Quando chegou na Cinelândia, falou grosso:
- Pára aí que vou saltar.
- Não, o senhor vai até o comando.
- Comando coisíssima nenhuma. Vou é para o Senado. Sou o Senador Vitorino Freire.
- Por que o senhor não avisou antes?
- Porque estava precisando de uma carona, e não tenho preconceito contra automóveis. Rodou, serve.

2. José Sarney ia ser ministro de Jango, representando a Bossa Nova da UDN. Tudo combinado, houve reunião da direção nacional do partido para dar sinal verde. Djalma Marinho, do Rio Grande do Norte, não concordou:
- Ministro de Jango, só deixando a UDN.
Mesmo assim, no dia seguinte, Carlos Castello Branco informava em sua coluna:
- “Sarney só não será ministro se Vitorino Freire vetar junto a Jango”.
Vitorino telefonou para Castello:
- Olhe, Castello, eu faço política em cima da fivela. Não sou do PTB nem da UDN. Se o galho não é meu, não tenho nada com o macaco. O doutor Sarney pode até ser ministro da Guerra do doutor Jango.
A UDN recuou. Jango também.

3. Vitorino Freire, filósofo do Maranhão:
* Quando o pasto pega fogo, préa cai no brejo.
* O risco que corre o pau, corre o machado.
* Não quero que ajudem meu roçado. Só quero que os bois do vizinho não entre nele.
* O Sarney não conhece o tamanho do meu roçado. De um lado da cerca eu grito e ele não ouve do outro lado.
* Política no Maranhão é um bumba-meu-boi que não sai sem mim.

De Arinos para Sarney

5 de agosto de 2009

O jornalista Élio Gaspari publica hoje na ‘Folha’ e no ‘Globo’ o seguinte artigo:

“José,
Renuncie, homem. Aqui somos três a pedi-lo. Eu, o Milton Campos e o Pedro Aleixo, três amigos, velhos companheiros a quem você admirava com sorriso encantado quando chegou à Câmara, em 1959, aos 29 anos.
Todos três passamos por momentos em que nos enganamos quando as circunstâncias se confundiram com a existência. Na renúncia do Jânio eu era ministro das Relações Exteriores e deveria ter defendido, desde o primeiro momento, a posse do doutor João Goulart. Em 1964, diante dos primeiros casos comprovados de tortura, o Milton deveria ter renunciado ao Ministério da Justiça. O Pedro Aleixo reconhece que naquela reunião que editou o AI-5 ele devia ter devolvido a Vice-Presidência. Um ano depois, apearam-no. Nos três casos, as circunstâncias indicavam que devíamos fazer o que fizemos.
Confundidos, pensávamos que não havia opção melhor. Você sabe que a modéstia nunca foi um
dos meus atributos: não percebemos quão grandes éramos.
Com justos motivos você avalia suas opções levando em conta o que diz o presidente Lula, o apoio do senador Renan Calheiros e até mesmo a agressiva defesa representada por Fernando Collor. Você pensa até no PMDB. Tudo circunstancial. Em 1988, Lula te chamou de “incapaz” cinco vezes em 43 segundos. O que haveria de pensar o jovem José Sarney se visse a mim, ao Milton e ao Pedro almoçando no Bife de Ouro com o Tenório Cavalcanti e o Amaral Neto? Claro que pouca gente sabe quem são esses dois (nem estamos aqui para reapresentá-los). Assim como os jovens de hoje não lembram o que foi a UDN, os de amanhã não lembrarão o que foi o PMDB.
Renuncie, homem. Saia desse contratempo e carregue seus penares. A crise é sua, mas a essa altura ela interessa aos outros. Ao Lula convém um Congresso desmoralizado. Aos aliados do PMDB interessa mostrar que têm os poderes dos embalsamadores. Fuja do sarcófago.
Censurar jornal, José? Chantagear o Pedro Simon, Sarney? Esse não é nosso patrimônio. O presidente que ficou impassível enquanto seu ônibus era apedrejado e riscou com o traço da bonomia sua passagem pela vida pública está se apedrejando.
Orgulhamo-nos da tua alvorada. Não compartilhe o crepúsculo com os senadores Calheiros e Collor. O Antonio Carlos Magalhães diz que isso é feitiço de um certo Bita do Barão, com seus tambores de Codó.
Milton Campos e Pedro Aleixo pediram-me que escrevesse porque insistem em lembrar a qualidade do meu discurso de 9 de agosto de 1954. Até hoje sofro por esse ataque ao Getúlio Vargas. Não que devesse poupá-lo, mas padeço pelo que sucedeu 15 dias depois. (Ele evita encontrar comigo, nunca me dirigiu a palavra e, na chegada do d. Helder Câmara, negou-me a mão.) Sei que você memorizou trechos dessa fala e sei que você jamais viu malícia na minha alma.
Como o Pedro e o Milton insistiram ao ponto da impertinência, repito-me:
“Senhor presidente Getúlio Vargas, eu lhe falo como presidente (…) tome afinal aquela deliberação, que é a última que um presidente, na sua situação, pode tomar. (…) E eu falo ao homem Getúlio Vargas e lhe digo: lembre-se da glória de sua terra (…) lembre-se homem, pelos pequeninos, pelos humilhados, pelos operários, pelos poetas”.
Com as recomendações de Annah e os votos pela recuperação de Marly, deixa-lhe um abraço e a certeza da amizade, o seu,
Afonso”

Getúlio Vargas e o Trabalhismo Brasileiro

O 24 de agosto representa um dia inesquecível para o trabalhismo brasileiro.

Esta data é comemorada em todo o país pelos verdadeiros trabalhistas.

“O pau se conhece pela casca”.

Quem não cultua a memória de Vargas não pode ser considerado trabalhista.

Será, no mínimo, impostor.

Hoje em dia, pode-se, até, combatê-lo, mas ignorar, nunca!

Hélio Fernandes, ao ensejo do 58º aniversário da morte de Getúlio Vargas escreveu, em sua coluna, na Tribuna da Imprensa:

“A renúncia pela morte, liquidando os inimigos.
Há 54 anos, Getúlio Vargas, pela primeira vez presidente eleito do Brasil, se matava. Foi o golpe mais genial de toda a história, não só nossa, mas do mundo inteiro. Getulio, apenas com um tiro, "deixou a vida para entrar na História", mas eliminava também, de forma irrecuperável, todos os inimigos ou adversários. A palavra que usei tem que ser repetida: GENIAL.”

Hélio Fernandes não disse, mas sabe que o que ele designa "inimigos ou adversários" de Vargas se abrigavam, todos, no raivoso segmento designado como "Banda de Música da UDN" e que viria inspirar a cassação do mandato e suspender os direitos políticos, por dez anos, do eficiente Deputado Federal udenista, lançado por Aquidauana, Edson Brito Garcia, pelo "terrível delito" de ser integrante da ala progressista do mesmo partido, intitulada "Bossa Nova", motivo porque caiu em desagrado dos caciques do udenismo sul-mato-grossense.

Igual destino teve o Deputado Federal, também da UDN progressista, Wilson Barbosa Martins. que "curtiu" longos dez anos de suspensão de seus direitos políticos, mas felizmente, pôde completar sua excelente biografia. Isto, para não falarmos do ex-Ministro da Saúde e Deputado Federal Wilson Fadul, lider máximo do trabalhismo mato-grossense, bem como seus seguidores, implacavelmente perseguidos, presos, torturados, cassados e reformados, tudo por inspiração e até, por ordem, de líderes udenistas, das quais temos comprovação documental e, cujo maior mártir, em Aquidauana, foi Adonis Gonçalves.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

SARNEY, José

Fonte: FGV

* dep. fed. MA 1956, 1957 e 1959-1966; gov. MA 1966-1970; sen. MA 1971-1985; pres. Rep. 1985-1990; sen. AP 1991-.

José Ribamar Ferreira de Araújo Costa nasceu em Pinheiro (MA) em 24 de abril de 1930, filho de Sarney de Araújo Costa e de Kiola Ferreira de Araújo Costa. Em 1965 adotou legalmente o nome de José Sarney Costa, do qual já se utilizava para fins eleitorais desde 1958, por ser conhecido como "Zé do Sarney", isto é, José filho de Sarney.

Fez os estudos secundários no Colégio Marista e no Liceu Maranhense, cursando em seguida a Faculdade de Direito do Maranhão, pela qual se bacharelou em 1953. Por essa época ingressou na Academia Maranhense de Letras. Segundo Maurício Vaitsman, ao lado de Bandeira Tribuzi, Luci Teixeira, Lago Burnet, José Bento, Ferreira Gullar e outros escritores, fez parte de um movimento literário difundido através da revista que lançou o pós-modernismo no Maranhão, A Ilha, da qual foi um dos fundadores.

Iniciou suas atividades profissionais como oficial judiciário, tornando-se depois diretor da secretaria do Tribunal de Justiça do Mara-nhão. Ingressou na vida política ao eleger-se em outubro de 1954 quarto suplente de deputado federal na legenda do Partido Social Democrático (PSD), com 3.271 votos. Ocupou uma cadeira na Câmara entre agosto e setembro de 1956 e de maio a agosto do ano seguinte, além de outros curtos períodos. Segundo José Ribamar Caldeira, na história política do Maranhão o período de 1956 a 1966, que então se iniciava, caracterizou-se por um coronelismo particular, o vitorinismo, que consistiu no domínio absoluto dos interesses do senador Vitorino Freire.

Em 1957 assumiu a cadeira de professor de noções de direito da Faculdade de Serviço Social da Universidade Católica do Maranhão. Em fevereiro de 1958 encabeçou um abaixo-assinado que recebeu a adesão dos mais diversos partidos políticos, de líderes sindicais, advogados e jornalistas, em apoio à resolução da assembléia geral da Associação dos Trabalhadores Agrícolas do Maranhão (ATAM), mais tarde denominada Federação dos Trabalhadores Rurais do Maranhão, de convocar a II Conferência Agrária do Maranhão, a ser realizada em julho do mesmo ano. Rompendo a seguir com o vitorinismo, ingressou na União Democrática Nacional (UDN), cujo diretório regional presidiria desse ano até 1965, ao serem extintos os partidos. Em outubro de 1958 concorreu novamente à Câmara, com o apoio das Oposições Coligadas - UDN, Partido Democrata Cristão (PDC) e Partido Republicano (PR) -, sendo eleito com 15 mil votos. Assumiu o mandato em fevereiro de 1959 e logo depois aderiu à Frente Parlamentar Na-cionalista. Entre 1959 e 1960 foi vice-líder da UDN na Câmara.

Na "Bossa Nova" da UDN

No início da década de 1960, participou das primeiras articulações do auto-intitulado movimento renovador da UDN, identificado pela estreita vinculação com a candidatura, afinal vitoriosa, de Jânio Quadros às eleições presidenciais de outubro de 1960. Os objetivos dessa facção udenista - que seria denominada mais tarde "Bossa Nova", por analogia com o movimento da música popular - foram expostos pela primeira vez em fins de 1960 ao presi-dente do Diretório Nacional, Magalhães Pinto, por Sarney e pelo deputado paraense Clóvis Ferro Costa, que defende-ram "a adoção de nova tática política para corresponder aos anseios populares".

Empossado Jânio em janeiro de 1961, três meses depois, numa convenção em Recife, o grupo apareceu ostensivamente, já com a denominação "Bossa Nova", pregando uma linha de centro-esquerda, inspirada no programa de desenvolvimento com justiça social da doutrina da Igreja. Em termos políticos, o grupo apoiava as propostas reformistas de Jânio, consideradas nacionalistas e de interesse popular, tais como as leis antitruste e de remessa de lucros, a defesa das riquezas minerais, o combate à inflação, a reforma da lei de imposto de renda e a extinção das ações ao portador, entre outras. Nessa convenção, o deputado paulista Herbert Levy - do grupo denominado "Banda de Música", que se opunha à dissidência "Bossa Nova" - foi eleito presidente do partido, cabendo a Sarney a vice-presidência, que exerceria até 1963. Segundo Maria Vitória Benevides, os udenistas "bossa-nova" eram acusados pelos "bacharéis da Banda de Música" de filocomunistas e pelos demais udenistas tradicionais - os radicais lacerdistas e os vinculados à Ação De-mocrática Parlamentar (ADP) - de adesistas e oportunistas. Após a renúncia de Jânio e a posse de João Goulart, a "Bossa Nova" manteve sua posição reformista.

Em outubro de 1962, na legenda das Oposições Coligadas, à qual se unira o Partido Trabalhista Nacional (PTN), foi reeleito com a maior votação obtida no Maranhão por um candidato da oposição: 21.294 votos. Em abril do ano seguinte tornou-se um dos signatários do manifesto da "Bossa Nova", apresentado em Curitiba na convenção nacional da UDN pelo deputado José Aparecido de Oliveira (MG). O documento representou a ruptura decisiva da ala dissidente com relação aos udenistas tradicionais ao defender as reformas agrária, bancária, tributária e urbana, a política externa independente, o Plano Trienal do governo, a consolidação de Brasília, a democratização do ensino, o monopólio estatal do petróleo e a Eletrobrás. A "Bossa Nova" defendeu ainda a reforma agrária com emenda à Constituição, aceitando até a tese do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) a favor do "arrendamento compulsório".

No fim de 1963, Sarney e José Aparecido não compareceram à votação da emenda apresentada pelo deputado Bocaiúva Cunha, do PTB da Guanabara, para a reforma constitucional. O ponto polêmico da emenda se referia à indenização de terras desapropriadas "mediante títulos da dívida pública, resgatáveis em prestações sujeitas à correção do valor monetário em limite não excedente a 10% ao ano". A "Bossa Nova" discordou dos termos, considerando a indenização proposta "injusta e espoliativa", e apenas um udenista, José Carlos Guerra, de Pernambuco, votou a favor da emenda, derrotada por 176 votos a 121.

Segundo Maria Vitória Benevides, poucos dias antes do movimento político-militar que depôs João Goulart, Sarney discursou na C-mara: "O regime de opressão e de opróbrio jamais satisfaz o povo. Foi através da democracia, da manifestação do pensamento em praça pública e do voto que os trabalhadores conseguiram conquistar a situação de que hoje desfrutam. Por isso mesmo, recuso-me a acreditar que uma política popular possa, em algum momento, conjugar-se com a supressão das liberdades políticas."

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Sebastião Nery, a "Bossa Nova" Udenista e Sarney

(Coluna de Sebastião Nery na Tribuna da Imprensa)

Os helicópteros de Carter e Lula

Os helicópteros voavam sobre São Bernardo, no ABC paulista, para amedrontar Lula e seus companheiros, reunidos no estádio das grandes greves do fim da década de 70, mas quem ficou apavorado foi o diretor da Volkswagen, que telefonou aflito para o empresário Mario Garnero, presidente da Anfavea (Associação dos Fabricantes de Veículos Automotores):

- Doutor Mario, os helicópteros estão passando bem em cima da nossa cabeça, da nossa fábrica, aqui, sobre a Volkswagen.

- Não tem importância, doutor. É apenas uma operação treino, do governo, de intimidação. Não vão fazer nada.

- Doutor Mario, os helicópteros do Jimmy Carter no deserto do Irã também não fizeram nada. Mas caíram cinco e mataram um punhado de gente. E os fabricantes são os mesmos.

CPMF

A Comissão de Justiça do Senado aprovou, afinal, a prorrogação da CPMF, depois que o governo fez uma série de promessas e assumiu uma longa lista de compromissos com os partidos e senadores que o apóiam, garantindo enviar logo para o Congrresso medidas provisórias e projetos diminuindo a fúria confiscatoria dos impostos, que já chega a quase 40%.

Como os helicópetros de Jimmy Carter no Irã e os dos militares em São Bernardo, as promessas e compromissos são todos do mesmo Lula que, em 5 anos de governo, até hoje não cumpriu uma só, um só. Aprovada a CPMF no plenário do Senado no começo de dezembro, vai logo começar a gritaria.
E Lula vai dizer que os compromissos são do Margarina, o Mantega.

Ombudsman

Na TRIBUNA DA IMPRENSA, o "historiador (sic) e analista político" Said Barbosa Dib diz que "a persistência de Sarney em defender a cláusula democrática como critério para o ingresso no Mercosul se justifica pela vida do ex-presidente: são 52 anos de vida pública sempre comprometida com as liberdades democráticas" (sic). E cita três fatos inexistentes e estrambóticos.

1 - "Como udenista bossa-novista (sic), já havia participado (sic) da luta contra a ditadura Vargas, mais sanguinária do que a dos militares".

Errado. Sarney nasceu em 1930. A ditadura Vargas acabou em 1945, quando a UDN surgiu, e Sarney era um fedelho de ginasial. A "Bossa-Nova" da UDN só iria ser criada no congresso da UDN em Recife, em abril de 1961, três meses depois da posse de Janio, pelos deputados Seixas Doria (de Sergipe), José Sarney (do Maranhão), Ferro Costa (do Pará), Adahil Barreto (do Ceará) e José Aparecido (ainda não deputado, só iria eleger-se em 62), que organizaram um grupo para apoiar as propostas "nacionalistas, reformistas e de interesse popular" de Janio, contra o grupo conservador "Banda de Música", liderado pelo deputado Herbert Levy (de São Paulo). No fim, fizeram uma composição: Levy foi eleito presidente da UDN e Sarney vice.

Said Dib

2 - "Único governador (sic) que ousou criticar (sic) o golpe de 64".

Errado. Em 64, Sarney ainda não era governador, apoiou o golpe (enquanto seus companheiros de fundação da Bossa-Nova foram todos cassados: Seixas, Ferro, Aparecido e Adahil - este já no PTB). Em 65, Sarney elegeu-se governador, ajudado pelo general Castelo Branco, que mandou o coronel João Figueiredo, do SNI, para participar da campanha de Sarney lá.

Um Sarney

3 - "Durante o governo Geisel, Sarney ajudou (sic) o presidente a quebrar as resistências (sic) da `linha-dura' e de seu próprio partido, a Arena, contra o processo de distensão política".

Errado. Em setembro de 73, a Arena homologou para presidente o nome de Geisel, que só assumiu em março de 74. Sarney fez tudo para Geisel nomeá-lo de novo governador e não conseguiu. Geisel sabia muito bem quem era Sarney e o que ele pensava. No dia 30 de dezembro de 73, com Geisel já escolhido presidente, o jornal "Estado do Maranhão", de Sarney, republicou, na primeira página, uma entrevista de Sarney dada na véspera ao "Globo":

"Sarney: a abertura só virá com a expansão (sic) do sistema".

"O senador Sarney, da Arena do Maranhão, advertiu que qualquer outra espécie de abertura que não seja a expansão (sic) do sistema é cair no irrealismo, na falta de objetividade".

"Sistema" era o regime militar, a ditadura. Defendendo a "expansão do "sistema", Sarney defendia a ampliação, o endurecimento do regime, da ditadura, mais ainda do que no governo Medici, o que era exatamente a posição da "linha dura", que tinha sido derrotada com a escolha de Geisel.

Outro Sarney

4 - O "historiador" (sic) Said está inteiramente certo é quando diz que "assumindo a presidência (em 85), Sarney soube garantir o delicado processo de redemocratização pós-regime militar, acabando com o entulho autoritário, comvocando a Constituinte, legalizando partidos clandestinos e garantindo liberdades essenciais, como a da imprensa e a sindical".

São dois Sarney. O da ditadura e o da democracia. O da ditadura achava pouco e queria mais. O da democracia passou caol no seu nome para a história.

Fonte: Tribuna da Imprensa Online

http://www.tribuna.inf.br/coluna.asp?coluna=nery